Não à censura de Monteiro Lobato nas escolas — parte V de textos de Gilberto Freyre

17 10 2011

Reproduzo aqui, a quinta parte de  uma coletânea de seis textos de Gilberto Freyre, escritos entre 1948 e 1951  para a revista O Cruzeiro, em que o sociólogo esclarece alguns pontos sobre a censura.

Nacionalismo e internacionalismo nas histórias em quadrinhos

(parte V)   –    Gilberto Freyre

Ainda as histórias em quadrinhos.  Também na Inglaterra houve quem se levantasse contra elas considerando-as ianquismo ou americanismo da pior espécie.  Engano.  É apenas um modernismo que corresponde à época que atravessamos.  E que tanto pode ser utilizado no bom como no mau sentido.

O Reverendo Morris – segundo a revista brasileira que acaba de divulgar suas opiniões publicadas em “The Manchester Guardian”  — é o que inteligentemente acentua: “Os pais deveriam deixar de insistir numa censura negativa; ao invés disso, deveriam demonstrar um interesse positivo pelo que lêem seus filhos.  Deveriam escolher histórias em quadrinhos, nas quais os temas das narrativas são elevados, além disso, onde nem todos os vilões são estrangeiros…”

Exatamente o critério que defendi há três ou quatro anos na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e neste meu recanto de “O Cruzeiro”.  Recebi, então, cartas terríveis.  Uma delas insinuava que eu estaria a serviço de alguma empresa ianque de histórias em quadrinhos.  Serviço encapuçado, mas serviço.

Outra coincidência de opinião do Rev. Morris com as idéias que esbocei em 1949: “A violência e a aventura existem na Bíblia. Em Shakespeare, em Sir Walter Scott e em Stevenson, em não menor grau do que nas histórias em quadrinhos americanas e nas historias Vitorianas de demônios e vampiros”.  O que é fácil, facílimo verificar.

Também a revista brasileira, que divulga as palavras sensatamente britânicas do Rev. Morris, reproduz sobre o assunto a opinião de uma Professora de Psiquiatria de Universidade norte-americana: a Dra. Bender. “Do ponto de vista psicológico” – diz ela – “as histórias em quadrinhos constituem uma grande experiência de atividade.  Seus heróis vencem o espaço e o tempo, o que dá às crianças senso de libertação, ao contrário de angústia e de medo”.  E ainda: “o uso de símbolos utilizados nas histórias em quadrinhos ajuda até mesmo os adultos a ajustar sua personalidade às duras provas do mundo contemporâneo”.

O que é preciso é que não se abandone um modernismo das possibilidades da história em quadrinhos aos maus exploradores desse e de outros modernismos.  E no Brasil, felizmente, começa a haver uma boa, não sei se diga, literatura, desse gênero.

Em: Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.


Ações

Information

Deixe um comentário